Num tempo em que a parentalidade se tornou ruidosa saturada de opiniões rápidas, fórmulas instantâneas e julgamentos públicos há profissionais que seguem na contramão do espetáculo. Cleide Hauser é uma dessas presenças raras. O seu trabalho não nasce da urgência de corrigir, mas da maturidade de compreender. Não se impõe pelo discurso elevado, mas pela escuta firme. Não promete milagres, mas constrói vínculos reais.
Para além dos títulos profissionais, Cleide Hauser apresenta-se, antes de tudo, como mulher e mãe. Alguém que observa o humano com empatia e respeito, consciente de que educar não é um ato isolado, mas um processo relacional contínuo. A sua convicção é clara: vínculos saudáveis transformam vidas. E essa transformação começa sempre no adulto.
“Ninguém educa sozinho todos estamos em constante aprendizado.”
O seu percurso não foi marcado por um chamamento súbito, mas por um processo silencioso de maturação. Ao longo da sua trajetória, Cleide percebeu algo essencial e muitas vezes ignorado: grande parte das dores familiares não nasce da falta de amor, mas da ausência de compreensão emocional e de orientação adequada. Foi nesse ponto que o seu trabalho ganhou forma traduzir o comportamento infantil e adolescente, muitas vezes rotulado como “inadequado”, numa linguagem emocional acessível aos pais, devolvendo-lhes clareza, consciência e, sobretudo, paz familiar.
Quando as mães chegam até Cleide Hauser, trazem quase sempre três marcas profundas: cansaço, culpa e solidão. Mas é esta última que mais a inquieta porque raramente é nomeada. Trata-se de uma solidão emocional, silenciosa, que nasce da crença de que a mãe deve dar conta de tudo, sem falhar, sem descansar, sem pedir ajuda. O cansaço e a culpa surgem como consequências diretas desse isolamento interior.
No seu trabalho clínico e formativo, Cleide ajuda as mães a deslocarem o olhar. A grande viragem acontece quando se muda a pergunta. Não mais “por que o meu filho faz isto?”, mas “o que ele está a tentar comunicar?”.
“Quando a mãe entende que o comportamento é linguagem emocional, ela sai do embate e entra na escuta. A relação muda imediatamente.”
Acolher, explica Cleide, gera mais resultado do que apontar. Sempre.
No acompanhamento de crianças e adolescentes com TDAH e TEA, Cleide identifica erros recorrentes quase sempre cometidos sem intenção. O mais grave é interpretar dificuldades neurológicas e cognitivas como falhas morais ou falta de esforço. Frases aparentemente banais como “és preguiçoso” ou “és tão desastrado” deixam marcas profundas.
Outro equívoco frequente é tentar aplicar modelos educativos padronizados a crianças que, pela sua própria natureza, precisam de abordagens individualizadas, previsibilidade e acolhimento emocional consistente.
“Filhos são únicos.”
E essa unicidade exige dos adultos algo cada vez mais raro: flexibilidade emocional e disponibilidade para aprender.
É possível educar sem gritos e sem culpa? Cleide responde sem hesitação: sim, é possível. Mas com uma condição incontornável a consciência emocional do adulto.
“A melhor maneira de educar os filhos é começando pelos pais.”
Educar sem gritos não é uma técnica, é um estado interno. Exige que o adulto aprenda a regular as próprias emoções e compreenda que firmeza não precisa de agressividade. Cleide cita a psicóloga Jane Nelsen com precisão cirúrgica:
“De onde tirámos a absurda ideia de que, para levar uma criança a agir melhor, precisamos antes fazê-la sentir-se pior?”
Num quotidiano acelerado, Cleide desmonta outro mito: o de que vínculos exigem grandes quantidades de tempo. Para ela, o vínculo nasce da qualidade da presença. Pequenos rituais uma conversa atenta, um olhar sem telemóvel, um gesto de escuta verdadeira criam memórias emocionais que atravessam a vida adulta.
Ver um filme juntos, contar histórias de família, fazer um bolo: são esses gestos simples que constroem segurança afetiva.
Os planos de responsabilidades individuais, quando bem conduzidos, tornam-se ferramentas poderosas de desenvolvimento emocional. Não se trata de cobrar, mas de incluir. A criança que entende o seu papel na família desenvolve autonomia, autorregulação e autoestima.
“A inutilidade gera comportamentos inadequados.”
Responsabilidade, neste contexto, é construção de identidade e pertença.
Cleide insiste: relações saudáveis não se constroem com grandes discursos, mas com constância. As conversas simples do dia a dia ensinam à criança que pode errar sem ser rejeitada, sentir sem ser invalidada, falar sem medo.
“Um ‘tu consegues’ tem mais força do que longas explicações sobre como conseguir.”
Talvez a mudança mais profunda aconteça quando os pais deixam de tentar corrigir os filhos e passam a olhar para si próprios. O ambiente familiar transforma-se: deixa de ser reativo e torna-se consciente. A criança já não precisa de “gritar” através do comportamento para ser vista.
Aos pais sobretudo às mães que sentem que algo não está bem, mas não sabem exatamente o quê, Cleide deixa um conselho claro e responsável:
“Confie na sua perceção. Procurar ajuda não é fracasso, é maturidade emocional.”
Silenciar o problema apenas o enraíza. O cuidado consciente inicia a solução.
O legado que Cleide Hauser deseja deixar não é feito de métodos rígidos nem de promessas fáceis. É um legado de consciência. Famílias menos culpadas, mais seguras emocionalmente. Pais firmes e afetivos. Crianças que crescem sabendo quem são, o que sentem e que pertencem.
“Filhos seguros nascem de famílias emocionalmente estruturadas.”
Num mundo que grita soluções rápidas, Cleide Hauser lembra-nos de algo essencial e profundamente humano: educar é, antes de tudo, aprender a escutar. E escutar, verdadeiramente, é um ato revolucionário.


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