Há pessoas que aprendem a empreender porque decidiram abrir um negócio. E há aquelas cuja relação com o empreendedorismo começa muito antes de existir uma empresa, um cargo ou uma estratégia. Aulinda da Silva Furtado pertence a este segundo grupo.
Aos 39 anos, a angolana construiu uma trajectória marcada pela gestão, consultoria, formação, criação de conteúdo e desenvolvimento de negócios, mas a sua visão sobre liderança e empreendedorismo nasceu muito antes da vida profissional. Nasceu em casa, a observar os pais transformarem criatividade em soluções e recursos limitados em oportunidades.
Hoje, depois de experiências que a levaram a viver em diferentes contextos culturais e em quatro continentes, Aulinda olha para os negócios com uma perspectiva que ultrapassa fronteiras geográficas. Para ela, uma empresa não é apenas uma estrutura que vende produtos ou serviços. É uma organização feita de pessoas, decisões, valores e responsabilidades que podem influenciar famílias, comunidades e gerações.
É também por isso que a sua história não pode ser contada apenas através dos cargos que ocupa ou dos projectos que desenvolve. Existe, por detrás da profissional, uma mulher profundamente ligada à fé, à família, à aprendizagem e à ideia de que ninguém cresce verdadeiramente quando deixa de estar disponível para aprender.
Uma escola chamada família
Aulinda recorda a infância como o primeiro grande laboratório de empreendedorismo.
O pai era, nas suas palavras, praticamente um “faz-tudo”. A mãe era a sua grande coadjuvante. Juntos, encontravam formas de criar produtos, resolver problemas e garantir o sustento da família. Em casa, chegaram a ter uma pequena loja onde comercializavam aquilo que produziam.
Naquele momento, Aulinda não estava a estudar gestão nem a pensar em construir empresas. Estava simplesmente a observar.
Anos mais tarde, percebeu que aquela vivência lhe tinha deixado competências que continuaria a utilizar ao longo da vida: criatividade, capacidade de adaptação, iniciativa e, sobretudo, a compreensão de que empreender é muitas vezes encontrar uma resposta possível com aquilo que temos à nossa disposição.
“O empreendedorismo, para mim, não começou na universidade nem quando abri a primeira empresa. Começou dentro de casa.”
É uma frase que resume uma parte importante da sua filosofia. Antes dos livros, vieram os exemplos. Antes das teorias, veio a experiência.
O preço das escolhas
O caminho até à mulher que é hoje também foi construído através de renúncias.
Durante a juventude, Aulinda precisou de tomar decisões que significavam abrir mão de determinadas experiências para investir num futuro que ainda não conseguia ver completamente.
Com o tempo, compreendeu que o crescimento raramente acontece sem escolhas difíceis.
Nem sempre é possível ter tudo ao mesmo tempo. Algumas conquistas exigem disciplina, paciência e a capacidade de dizer “não” ao imediato para proteger aquilo que se pretende construir a longo prazo.
Essa aprendizagem tornou-se uma das bases da sua forma de pensar.
Para Aulinda, as escolhas de hoje não determinam apenas o presente. Podem influenciar profundamente o futuro pessoal, profissional e familiar.
Quatro continentes, uma nova forma de olhar o mundo
Se a família lhe ensinou as primeiras lições sobre iniciativa e empreendedorismo, a experiência internacional ampliou a sua visão.
Viver nos Estados Unidos e passar por diferentes realidades culturais, em quatro continentes, obrigou-a a sair da sua própria perspectiva.
Aprendeu que comportamentos, mercados e pessoas não podem ser interpretados exclusivamente através da realidade de quem observa.
Cada cultura possui códigos, experiências, necessidades e formas diferentes de compreender o mundo.
Essa experiência teve impacto directo na sua maneira de gerir empresas.
Hoje, quando olha para uma organização, Aulinda procura compreender primeiro as pessoas.
Os processos são importantes. As estratégias são indispensáveis. Os indicadores financeiros são fundamentais. Mas, para ela, são as pessoas que fazem uma organização funcionar.
São elas que executam processos, interpretam estratégias, encontram soluções, identificam problemas e produzem resultados.
Por isso, antes de perguntar apenas “qual é o processo?”, Aulinda procura compreender “quem são as pessoas que estão por detrás dele?”.
O que as motiva? Como pensam? Que competências possuem? O que podem melhorar? Como podem contribuir para os objectivos da organização?
Esta mudança de perspectiva é uma das marcas da sua liderança.
Crescer não é apenas movimentar-se
Existe uma diferença entre estar ocupado e estar a crescer.
Aulinda observa que muitos empreendedores investem grande energia em vendas, redes sociais, eventos, novos produtos, visibilidade e expansão, mas esquecem uma questão fundamental: a empresa está preparada internamente para sustentar aquilo que pretende conquistar externamente?
Para ela, este é um dos grandes desafios do empreendedorismo contemporâneo.
Uma empresa pode parecer extremamente activa e, ainda assim, não estar a crescer de forma saudável.
Lançar constantemente novos produtos, aumentar a presença digital ou participar em inúmeros eventos não significa necessariamente evolução.
O crescimento sustentável exige estrutura, pessoas preparadas, estratégia, posicionamento e controlo financeiro.
E existe ainda uma mudança que o próprio empreendedor precisa de aceitar: aquilo que funcionou ontem pode não funcionar amanhã.
É aqui que surge um dos conceitos que Aulinda mais valoriza: humildade intelectual.
Crescer também significa reconhecer que algumas respostas precisam de ser revistas.
Significa desaprender.
Reajustar.
Mudar de estratégia.
E ter maturidade para admitir que uma solução que funcionou numa determinada fase pode tornar-se insuficiente quando a empresa entra noutra etapa.
O posicionamento começa antes do marketing
Aulinda tem uma visão particularmente interessante sobre posicionamento.
Para ela, posicionamento não começa no logótipo, nas redes sociais ou numa campanha publicitária.
Começa na conduta.
Antes de apresentar uma empresa ao mercado, o empreendedor apresenta a si próprio.
A forma como fala. A maneira como cumpre compromissos. A relação que estabelece com clientes e parceiros. Os valores que defende. A qualidade daquilo que entrega. A consistência entre aquilo que promete e aquilo que realmente faz.
Tudo isso constrói percepção.
Por isso, Aulinda resume a sua visão através de uma fórmula:
Performance = Valores + Conduta + Consistência
A partir daí, surge o posicionamento: a percepção que o mercado constrói com base na performance.
E, finalmente, o resultado: o valor que o mercado reconhece.
É uma abordagem que coloca a autenticidade e a coerência no centro da construção de uma marca.
Porque, no seu entendimento, não adianta comunicar excelência se a experiência entregue ao cliente conta uma história completamente diferente.
A mulher por detrás da profissional
Existe, contudo, uma dimensão da vida de Aulinda que não aceita ser sacrificada em nome da carreira: a família.
Empresária, consultora, formadora e criadora de conteúdo, ela lida diariamente com múltiplas responsabilidades. A organização tornou-se, por isso, uma ferramenta indispensável.
Agenda, prioridades e gestão do tempo fazem parte da sua rotina.
Mas há uma diferença.
A família não entra na agenda como mais uma tarefa.
É o pilar.
É aquilo que sustenta as restantes áreas.
Aulinda rejeita a ideia de que o sucesso profissional deve necessariamente ser construído à custa da vida pessoal e familiar.
Para ela, não existe verdadeiro crescimento quando, para conquistar uma área da vida, destruímos outra.
Essa visão também está presente no seu livro, “O Código Secreto do Posicionamento no Mercado — SPM”, onde aborda o posicionamento para além da simples estratégia empresarial.
Porque, na sua perspectiva, antes de governar uma empresa, é necessário aprender a governar a própria vida.
Os valores que orientam a liderança profissional começam muitas vezes dentro de casa.
Aprender para continuar relevante
Num mundo em que a tecnologia, os hábitos dos consumidores e os modelos de negócio mudam constantemente, Aulinda acredita que uma das maiores competências de um empreendedor é saber actualizar-se.
Mas faz uma distinção importante: actualizar-se não significa acumular certificados.
A formação deve responder a necessidades concretas.
É aquilo que chama de capacitação consciente.
O profissional precisa de identificar aquilo que realmente necessita de aprender para melhorar a sua performance, optimizar o tempo e tomar melhores decisões.
A isso junta uma segunda competência: a adaptabilidade.
O empreendedor precisa de conseguir interpretar as mudanças do mercado e ajustar-se sem perder aquilo que torna o negócio único.
Na sua visão, três pilares tornam-se essenciais:
actualização contínua, capacitação consciente e adaptabilidade.
Porque num mercado em constante transformação, deixar de aprender pode significar deixar de ser relevante.
Empreender também é assumir responsabilidade
Para Aulinda, o empreendedorismo não termina na criação de uma empresa ou na geração de lucro.
Existe uma dimensão social.
Uma empresa faz parte de um ecossistema. As suas decisões afectam trabalhadores, clientes, famílias, comunidades e, indirectamente, as gerações seguintes.
É por isso que o impacto que pretende deixar através das suas empresas, consultorias e formações não se resume aos resultados financeiros.
A sua ambição é contribuir para formar empreendedores e líderes mais conscientes.
Pessoas capazes de pensar para além do resultado imediato.
Líderes que compreendam que cada decisão empresarial pode produzir consequências muito maiores do que aquilo que aparece num relatório financeiro.
O seu propósito está ligado à construção de negócios sustentáveis, mas também à formação de pessoas capazes de os conduzir com responsabilidade.
Uma mensagem para quem ainda está a esperar
Talvez uma das maiores barreiras ao empreendedorismo não seja a falta de ideias.
Seja o medo de começar.
Aulinda acredita que muitas ideias nunca chegam ao mercado porque os seus criadores passam demasiado tempo à espera do momento perfeito.
Mas o momento perfeito raramente chega.
É preciso começar, aprender, corrigir e continuar.
Ela aconselha também os novos empreendedores a escolherem cuidadosamente as suas referências.
Não para copiar o caminho de alguém, mas para aprender com quem já enfrentou desafios semelhantes.
Uma boa referência pode ajudar a compreender possibilidades, evitar erros e perceber que determinados sonhos são possíveis.
Mas cada pessoa precisa, no final, de construir a sua própria trajectória.
Uma visão que atravessa fronteiras
A história de Aulinda Furtado é, acima de tudo, uma história sobre construção.
Construção de negócios.
Construção de conhecimento.
Construção de liderança.
Construção de uma vida em que família, fé, carreira e propósito não precisam necessariamente de competir entre si.
A menina que observava os pais a transformar recursos em oportunidades tornou-se uma profissional com uma visão que atravessa culturas e geografias.
As experiências internacionais ensinaram-lhe a olhar para o mundo com menos julgamento e maior inteligência contextual. A gestão ensinou-lhe a importância da estrutura. O empreendedorismo ensinou-lhe a coragem de agir. A família ensinou-lhe aquilo que considera essencial preservar.
E a humildade intelectual mantém-lhe os olhos abertos para aquilo que ainda pode aprender.
Aulinda não fala apenas sobre crescer.
Fala sobre crescer de forma consciente.
Porque, para ela, o verdadeiro sucesso não está simplesmente em chegar mais longe.
Está em chegar mais longe sem perder os valores que deram sentido ao caminho — e, sobretudo, em conseguir abrir espaço para que outros também possam avançar.
Entre Angola, os Estados Unidos e diferentes experiências culturais, Aulinda Furtado construiu uma visão que não cabe numa única geografia. A sua fronteira, hoje, não é o lugar onde nasceu ou onde viveu. É o limite que decide não colocar naquilo que ainda pode construir.




