Há histórias que começam com uma profissão. Outras começam com uma inquietação. A de Rosária Celestino começou com perguntas perguntas que nasceram de experiências pessoais, cresceram através do estudo e acabaram por se transformar numa missão de vida: falar sobre fertilidade com mais conhecimento, humanidade e responsabilidade.
É essa mulher que a PM Services Magazine apresenta nesta edição: para além da especialista em fertilidade, da empreendedora, autora e criadora de conteúdo, existe uma mulher angolana, mãe, funcionária da Embaixada da República de Angola acreditada junto do Reino da Bélgica e do Grão-Ducado do Luxemburgo, que há vários anos vive entre as suas raízes africanas e uma realidade europeia que também contribuiu para moldar a sua visão do mundo.
Rosária não se define pelos títulos. Define-se pela experiência. É uma mulher que ama, sonha, chora, sente medo, cai e se levanta. Uma mulher que aprendeu que vulnerabilidade e força não são opostos e que não é necessário parecer invencível para continuar.
É também uma mulher movida pela curiosidade. Quando uma questão a toca, procura compreender. Estuda, questiona, investiga e procura respostas. Foi assim que a fertilidade entrou profundamente na sua vida e, mais tarde, a bioética passou também a fazer parte dessa procura por conhecimento.
O resultado dessa jornada é uma voz que hoje procura levar informação a mulheres e famílias que, muitas vezes, atravessam questões relacionadas com a fertilidade em silêncio.
DA EXPERIÊNCIA PESSOAL AO PROPÓSITO
Para Rosária, falar de fertilidade nunca foi apenas uma escolha profissional. Antes de se transformar em área de estudo e intervenção, foi uma experiência pessoal.
A necessidade de compreender determinadas situações levou-a a procurar respostas. Quanto mais estudava, mais percebia que a fertilidade não podia ser analisada apenas através da dimensão médica. Por detrás de cada diagnóstico existem emoções, relações, questões culturais, sociais, familiares e bioéticas que também precisam de ser consideradas.
Foi nesse processo que uma experiência individual começou a ganhar uma dimensão maior.
Rosária percebeu que muitas mulheres e famílias enfrentavam questões semelhantes sem informação suficiente e, muitas vezes, sem espaço para falar abertamente sobre aquilo que estavam a viver.
Dessa percepção nasceu uma missão: transformar aquilo que viveu e aprendeu em conhecimento que pudesse ser útil para outras pessoas.
É também nesse percurso que surge o VidaFert, projecto criado com o propósito de contribuir para uma abordagem mais informada e humana da fertilidade. A iniciativa procura aproximar mulheres e famílias de informação responsável sobre saúde reprodutiva, ajudando-as a compreender possibilidades, fazer perguntas e participar de forma mais consciente nas decisões relacionadas com o seu percurso.
Rosária resume a própria caminhada de forma simples: primeiro viveu, depois procurou compreender e, quando compreendeu melhor, sentiu que precisava de partilhar.
FALAR DE FERTILIDADE ANTES DE FALAR DE INFERTILIDADE
Uma das principais mensagens defendidas por Rosária é a necessidade de mudar a forma como a sociedade olha para a fertilidade.
Para muitas pessoas, o tema só ganha importância quando surge uma dificuldade para engravidar. A especialista defende, porém, que o conhecimento sobre saúde reprodutiva deve começar muito antes de qualquer diagnóstico.
Para ela, fertilidade representa vida, mas não apenas no sentido de gerar uma criança. Representa desejo, tempo, corpo, esperança, escolhas e também a consciência de que nem tudo está sob o controlo humano.
É por isso que a sua comunicação procura incentivar mais conhecimento e autonomia.
Quanto mais uma pessoa conhece a sua saúde reprodutiva, mais preparada está para fazer perguntas, procurar orientação adequada e tomar decisões conscientes.
A mensagem é particularmente relevante num contexto em que ainda existem muitos mitos e expectativas irreais em torno da reprodução.
Rosária faz questão de estabelecer uma diferença fundamental: falar de esperança não significa prometer resultados.
A esperança, para ela, está na possibilidade de continuar a escolher mesmo diante da incerteza.
“A INFERTILIDADE NÃO TE DEFINE”
Uma das mensagens mais fortes associadas ao seu trabalho é dirigida directamente às mulheres que enfrentam dificuldades reprodutivas: “Minha rosa, a infertilidade não te define.”
Por detrás desta frase existe uma preocupação profunda com a identidade feminina.
Um diagnóstico pode ocupar uma parte importante da vida de uma mulher, mas não deve transformar-se na definição completa da pessoa.
A infertilidade pode trazer sofrimento e alterar planos, expectativas e relações, mas não retira a uma mulher a sua dignidade, feminilidade, inteligência, capacidade de amar ou valor.
Rosária chama a atenção precisamente para esse risco: o de uma mulher começar a olhar para si própria apenas através daquilo que o seu corpo ainda não conseguiu realizar.
Separar diagnóstico de identidade torna-se, por isso, uma forma de proteger a própria pessoa.
A infertilidade pode ser um capítulo doloroso de uma história. Não precisa de ser o livro inteiro.
O QUE EXISTE POR DETRÁS DE UM DIAGNÓSTICO
Quando se fala em infertilidade, normalmente fala-se de consultas, exames, tratamentos e resultados. Mas existe uma dimensão emocional que nem sempre aparece.
Rosária chama a atenção para sentimentos como culpa, medo, comparação e frustração. Existem perguntas que muitas mulheres fazem em silêncio: porquê comigo? Será que fiz alguma coisa errada? E se nunca acontecer?
Existe também o impacto na relação com o próprio corpo, no casal, na intimidade e na vida profissional.
Até acontecimentos felizes podem tornar-se emocionalmente difíceis. Uma gravidez anunciada por alguém próximo pode provocar sentimentos contraditórios numa mulher que está a enfrentar dificuldades para engravidar.
Ao mesmo tempo, muitas continuam a trabalhar, cuidar da família e sorrir enquanto enfrentam internamente uma realidade extremamente exigente.
É por isso que Rosária defende uma abordagem mais humana da fertilidade. Um resultado laboratorial pode explicar uma parte de uma situação, mas nunca conta sozinho a história da pessoa que recebe aquele resultado.
“O MILAGRE DA FERTILIDADE”: QUANDO A EXPERIÊNCIA SE TRANSFORMA EM LIVRO
Foi também dessa experiência que nasceu “O Milagre da Fertilidade”, obra através da qual Rosária decidiu transformar a sua caminhada em conhecimento partilhado.
O livro nasceu primeiro como experiência e só depois como conteúdo organizado em páginas. As perguntas que um dia precisou de fazer tornaram-se parte de uma narrativa que pretende ajudar outras pessoas a compreender melhor a fertilidade.
A obra não procura falar apenas de tratamentos ou de como engravidar. Aborda também aquilo que acontece com a pessoa durante esse percurso: os medos, as escolhas, a ciência, a esperança, os limites, a fé, as relações e a dignidade.
E existe uma particularidade importante no próprio título.
O “milagre” não representa uma promessa de gravidez.
Pode ser uma resposta finalmente encontrada. Pode ser uma decisão tomada de forma consciente. Pode ser a recuperação da relação de uma mulher consigo própria. Pode ser simplesmente a descoberta de que não está sozinha.
A missão do livro cumpre-se, em parte, quando alguém termina a leitura mais informado, mais compreendido e menos sozinho.
ENTRE ÁFRICA E EUROPA
A identidade angolana de Rosária ocupa um lugar importante na forma como encara a fertilidade.
A cultura africana atribui um enorme significado à família e à maternidade. Existe beleza nessa valorização, mas também existem contextos em que essa expectativa pode transformar-se em pressão sobre mulheres que não conseguem engravidar.
O silêncio, o julgamento e a tendência de atribuir exclusivamente à mulher a responsabilidade pela reprodução continuam a ser desafios que precisam de ser enfrentados.
A experiência de Rosária na Europa permitiu-lhe conhecer outras abordagens, sistemas de saúde e debates relacionados com reprodução e bioética.
Viver entre estas realidades ensinou-lhe que, embora a ciência possa atravessar fronteiras, a forma como cada sociedade vive a infertilidade é profundamente influenciada pela cultura.
É nesse cruzamento que encontra uma das suas maiores motivações: construir pontes entre África e Europa.
Rosária defende uma maior participação das mulheres africanas nas discussões sobre saúde reprodutiva e considera igualmente fundamental envolver os homens nesta conversa.
Mais do que isso, acredita que investigadores e profissionais africanos devem participar cada vez mais na produção de conhecimento e nos debates internacionais sobre reprodução e bioética.
África, defende, não deve ser apenas objecto de investigação. Deve também produzir conhecimento e participar na definição das perguntas que a ciência precisa de responder.
OS MITOS QUE AINDA PRECISAM DE SER DESCONSTRUÍDOS
Na sua comunicação, Rosária identifica vários conceitos que continuam a dificultar uma abordagem responsável da fertilidade.
Um dos principais é a ideia de que a infertilidade é essencialmente um problema feminino. Para ela, o factor masculino precisa de fazer parte desta conversa com a mesma naturalidade e responsabilidade.
Outro mito está relacionado com a ideia de que basta relaxar, não pensar no assunto ou simplesmente ter fé para resolver uma dificuldade reprodutiva.
A fé e o equilíbrio emocional podem ser importantes para muitas pessoas, mas não substituem uma avaliação médica adequada quando existe uma dificuldade.
Existe ainda uma expectativa perigosa em torno da reprodução medicamente assistida. Os avanços da medicina oferecem possibilidades extraordinárias, mas não significam garantia de um bebé. Existem probabilidades, limites e decisões complexas que precisam de ser comunicados com honestidade.
E há uma ideia que Rosária considera especialmente urgente combater: a de que uma mulher sem filhos é menos mulher ou menos realizada.
A maternidade pode ser um sonho profundo e legítimo. Nunca deve, porém, transformar-se numa medida do valor de uma mulher.
O MOMENTO EM QUE PERCEBEU QUE A SUA HISTÓRIA JÁ NÃO ERA APENAS SUA
Um dos momentos mais marcantes da caminhada de Rosária aconteceu durante o lançamento de “O Milagre da Fertilidade”, em Fevereiro, no Press Club Brussels Europe.
Durante a apresentação, enquanto partilhava algumas das experiências e reflexões que deram origem ao livro, começou a perceber a dimensão do impacto que aquela história estava a provocar.
No final, algumas mulheres aproximaram-se.
Identificaram-se com as suas palavras e pediram-lhe que não deixasse aquela mensagem confinada àquela sala. Disseram-lhe que havia muitas outras mulheres que precisavam de ouvir aquela conversa.
O momento marcou profundamente Rosária.
Ali percebeu que uma experiência que começou por ser pessoal já não lhe pertencia inteiramente.
Quando uma história ajuda outra pessoa a compreender a própria história, transforma-se em propósito.
Foi também uma confirmação de que precisava de continuar. Não porque tenha todas as respostas, mas porque percebeu que ainda existem demasiadas mulheres e famílias a viver questões relacionadas com fertilidade em silêncio.
É dessa necessidade de continuidade que o VidaFert ganha ainda mais força: transformar a experiência e o conhecimento numa conversa permanente, responsável e acessível.
UMA VOZ QUE QUER CHEGAR MAIS LONGE
A trajectória de Rosária Celestino está, portanto, longe de ser apenas uma história individual.
É uma história sobre informação, representação e responsabilidade.
É sobre uma mulher que decidiu não guardar para si aquilo que aprendeu.
É sobre transformar vulnerabilidade em conhecimento e conhecimento em serviço.
É sobre criar espaço para conversas que durante muito tempo foram evitadas.
E é também sobre aproximar diferentes realidades culturais numa área que diz respeito à humanidade inteira.
Ao olhar para o futuro, Rosária pretende continuar a desenvolver esse trabalho, ampliar o alcance da sua mensagem e contribuir para que mais mulheres e famílias tenham acesso a informação responsável sobre fertilidade.
Não promete respostas fáceis.
Não promete resultados.
Promete continuar a fazer perguntas, procurar conhecimento e abrir espaço para uma conversa mais consciente.
UMA MULHER EM PERMANENTE CONSTRUÇÃO
Aos 51 anos, informação que prefere manter longe do centro da sua exposição pública, Rosária continua a definir-se não pela idade nem pelos títulos, mas pelo processo de construção que considera permanente.
A sua história mostra que uma pessoa pode ocupar diferentes lugares e, ainda assim, continuar a descobrir-se.
Pode ser profissional, mãe, autora, empreendedora e criadora de conteúdo, sem deixar de ser simplesmente uma mulher que sente, questiona e aprende.
Talvez seja precisamente essa dimensão humana que torna a sua mensagem tão relevante.
Rosária Celestino não fala de fertilidade como quem observa um tema à distância.
Fala a partir da experiência, do estudo e da consciência de que, por detrás de cada questão reprodutiva, existe uma pessoa com sonhos, medos, relações, expectativas e uma história própria.
E é por isso que a sua mensagem ultrapassa a fertilidade.
É uma mensagem sobre dignidade.
Sobre conhecimento.
Sobre escolhas.
Sobre esperança sem falsas promessas.
E sobre a necessidade de lembrar, sobretudo nos momentos mais difíceis, que nenhum diagnóstico tem autoridade para definir uma pessoa inteira.
Porque, no percurso de Rosária Celestino, existe uma convicção que permanece acima de qualquer título: a mulher é sempre maior do que aquilo que lhe acontece.




